quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Parapeito

Esqueci as horas e fui contar as estrelas
uma por uma, até passar toda a tristeza.
Ficou com um brilho no ar e uma lágrima presa.
A vida é tão frágil quando me apoio no parapeito.
Olho prá rua, cravo meus pés no chão e abro meu peito.
É quando ela entra e se aboleta, feito borboleta
bate suas asas e me espalha de cores por dentro
e vai procurando um lugar prá pousar
pelos meus cantos canteiros, meus delírios viveiros
bebe da minha água riacho doce correnteza
se alimenta da minha calma e me faz inquieta
quando nas minhas falésias sonha alto
se arrisca no salto e plana gaivota branca
menina mar, moça oceano, mulher terra
contando as estrelas na solidão da janela.

imagem: desenho de Cristina Nunes
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Chuvas...

Te planto
nas minhas retinas
flor de acalanto
raiz cristalina.
Te planto
no solo fértil
na chuva indelével
e te colho pranto.
...
Quando chovia
ficava rouca
com olhar de poça
água de vida pouca
encharcada de melancolia.
...
A minha pele
tem sede da tua
quando na minha
se farta.
A tua pele e a minha
se tocam espelhos d’água.
A tua pele na minha
é chuva
na luz
serenata.
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Festa

De repente o céu abriu-se glorioso com todas as peneiras destapando o sol, as árvores acenavam verdes esperanças de todas as cores, a brisa acarinhava seu rosto, doce, licorosa feito carinho de amor, de repente era flor brotando em seu peito, formosa, bonita, delicada, e tudo lhe sorria feliz numa alegria de criança abraçando a vida... a vida, enfim, a lhe cobrir de beijos, a lhe jogar confetes, serpentinas, tudo se movia a lhe dar boas vindas.
Aprumou o corpo um pouco curvado pelo cansaço, ajeitou os cabelos num gesto esquecido, molhou os lábios com a saliva marejada pelo choro engolido... engole o choro... engole o choro... ouvira e engolira mais do que devia, engolira calada o grito, no susto a palavra maldita, arranhara a garganta de vontades e arfara no ar abafado que lhe batia mares de ressacas, movimento... e o coração apertado, uma ilha de sentimentos imprensados entre a fome e a sede, num peito congestionado pelo vício do desejo... desejava e era tão bom desejar, era como chorar olhando pro sol que latejava manhãs de verão no corpo sem marcas, sem manchas, liso de adornos, pronto... era como esperar o cabelo crescer e correr entre os dedos, os fios nas costas, cócegas no vento, desejar era o vento que alfinetava na pele os grãos da areia, era como correr e correr até convergir ao ponto que flutuava entre o interno da sua pálpebra e o externo da sua retina onde tudo refletia intenso até que sumisse... e sumir era como esquecer.
Aprumou o corpo num gesto esquecido, buscou na memória um sorriso e moveu o ar com a brisa do seu cata-vento...

imagem: desenho de Cristina Nunes
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sábado, 18 de outubro de 2008

Nuvem

Branca na cor do avesso
onde me encontro nuvem
me fragmento
nas formas que são
que quero
que tento
sou pura ilusão
nos braços do vento.

Imagem: desenho de Cristina Nunes
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O nome dela


De repente ele chamou por ela num canto de arribação atravessando a sua timidez, e uma forma de dor, estranha e inexplicável, provocou na sua boca um gosto de sangue, um gosto de vida, coração. Alguma coisa a feriu por dentro e no rosto, banhado de susto, a cor do seu avesso revelou a nascente de um sentimento que ela não conhecia.
Quis alcançar o corpo agora distante a se confundir, tocar os braços que roubaram seu nome e deixaram as asas presas no seu vestido. Passou a procurar seu nome nos braços dos homens que passavam por ela.
Passaram braços com outros nomes: Maria, Joana, Ana e Vera.
Passaram pelos outonos, invernos, verões, primaveras.
Passaram tantos, passaram poucos.
Passaram pássaros brandos e loucos.
Não viu o seu nome em nenhuma pena, nenhum suor exalou o seu nome... leu poemas em versos velozes, leu poesia na flor da janela, leu seu rosto espelhado... mas nenhum nome bordado na tela. E já quase esquecia que a noite caía na sombra das velas, no sopro da brisa, com a boca do dia guardando uma luz no horizonte.
Seguiu seu caminho sem guia nas tardes com ventos de areia, levantando poeira, folhas secas, ciscos de sonhos e o par de asas presas. Às vezes olhava prá trás e a lança afiada do sol franzia seus olhos e alargava seu rosto contraído, e retomava a caminhada numa corrida, até faltar o fôlego, as pernas, o ar, até faltar todo o sentido...

imagem: desenho de Cristina Nunes
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terça-feira, 30 de setembro de 2008

Planos...

Pequena rosa que me espia
enquanto toco com mãos frias
uma superfície de vidro
que me separa da vida.
Livre é a queda.
Livre é o arbítrio.
Eu que pensei fosse um sonho
esse vôo sobre o abismo
abri meus braços pro mundo
sem perceber que no fundo
brilhavam pedaços de mim.
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A teia

O céu, com os olhos fechados, chorava na escuridão... eu olhava enquanto os bichos atravessavam, com seus sons noturnos, o silêncio que se movia entre os canteiros de folhas trêmulas, onde gotas lacrimosas do tempo deslizavam pelas laminas verdes escorregadias.
Apenas mais uma noite escura com uma chuva miúda, lenta e fraca como um choro pequeno de mágoa resignada.
Protegida pelo beiral do telhado eu simplesmente olhava, sem nenhuma pretensão. Mas havia uma aranha laboriosa, com gestos perfeitos e ritmados, em plena atividade. Volta e meia eu voltava meus olhos prá ela. Tão perto de mim parecia ignorar minha presença. Por um instante me vi mais forte que ela, maior, mais poderosa... seria fácil matá-la, pensei num segundo. Mas porque matá-la se era só mais uma aranha a tecer numa noite fria?... e tão fria a perscrutar cada ruído de um sentimento encoberto, numa sensação de vida estagnada, presa na trama que ela mesma urde com perfeição de nós e embaraços.
Resta o latejar das veias, o pulsar no peito, se debater de qualquer jeito.
Resta uma esperança tola, mas boa.
Resta sempre alguma coisa prá se estender ao sol quando a manhã, com os olhos abertos, nos cobre de luz.
Resta sempre um pouco de nós.
E porque era uma noite negra, abri bem meus olhos prá tentar entender o que o céu encobria, mas emaranhado o pensamento não se alinhava, eu não alcançava e só me restava o olhar parado na trama da teia alheia ao meu desvario.
Restava na pele um arrepio.
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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Corpo e alma


Não podia errar, não podia se perder, tampouco se deixar levar por qualquer sedução que cruzasse à sua frente com atalhos de espinhos e faróis de luar. A pele com que fora vestida não suportaria cortes, sangraria tanto que nada mais restaria a não ser ela mesma... e ela mesma era uma verdade equilibrada numa mentira de braços abertos, a sua forma de se apoiar tornava seu rosto distante, enevoado, como se através de alguma vidraça chorasse o tempo perdido em seus olhos.
Mergulhada nos espelhos noturnos a beleza mascarada perdia a feição, era outra a beleza que havia na face nua entregue ao erro, seu traço desfeito era a perfeição do risco na expressão de um movimento parado sobre os dormentes que formigavam seu chão... um chão que queria tocar com as mãos numa queda perfeita em compaixão, compaixão de si mesma retida na raiz da sua natureza errante.
E como se roubasse para si todo o ar que houvesse no mundo respirava fundo até sentir oco o espaço que, à sua volta, obrigava, vigiava, aprisionava... o espaço que ela evadia com a vingança de um sorriso pequeno e sincero esculpido pelos cinzéis de prata no silêncio dos gestos. Uma maldade humana ria da sua própria fraqueza ao ver-se crua e espantada na forma mais bruta. Clandestina em seu próprio corpo a transgressão da alma era a sua libertação.

imagem: desenho de Cristina Nunes
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sexta-feira, 9 de maio de 2008

Indefinida

Sentia um aperto no peito e, talvez por isso, se sentisse tão pequena e, talvez por se sentir pequena, seu olhar se alongava comprido e fino como um córrego rio. Possuía rios no olhar e com os olhos sorria sempre que não conseguia definir sua aflição.
Era aflita e leve e respirava nuvens, fragrâncias de frascos vazios, respirava a essência dos seus dias e se sentia suspensa. Ela estava apaixonada pela vida que avistava ao longe presa pelo fio do olhar que se alongava, ela se prolongava com os olhos pousados na fuga do horizonte. Às vezes ouvia risos e vozes que pareciam vir de muito longe, e uma mão a tocava e no movimento lento de uns lábios ela lia a pergunta: “...em que mundo você está?...”.
E todos tão certos e definidos, todos felizes desempenhando, todos corriam tão bem em volta do fogo, as fogueiras que eles pulavam, as ondas que eles furavam, todos mergulhavam tão bem de olhos abertos, todos se destacavam em cores volumosas à sombra de luzes que vinham do céu enquanto ela esmaecia num olhar de aquarela.
Nunca estava a postos, mas sempre prestes a tropeçar numa pedrinha, a se queimar com uma faísca, a se afogar numa gota. Ela se distraía com o que via ao longe, pelo que viria sem saber por onde, e se esquecia pequena e aflita parada de olhos parados, sustada, possuída por uma vida possível. O rosto contraído de pensamentos distantes que contornavam seu corpo e a levavam leve e aflita a pular fogueiras, a furar ondas, os olhos abertos ardendo... ardia o peito apertado de sentimentos e uma alegria surgia banhada em tristeza temperando a saliva. Ela sorria sentindo o gosto da lágrima na ponta da língua sentindo o mar encrespando na boca e mergulhava numa nostalgia que a destacava pálida na sombra das asas na iminente fuga.
Ela fugia do mundo sempre que se buscava e retornava cada vez mais apaixonada, pequena e aflita respirando nuvens, a sua essência leve nos frascos vazios, seus olhos se prolongando nos rios, ela sorrindo se alongando suspensa e tudo começava de novo...
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domingo, 20 de abril de 2008

Depois então...

O depois era uma coisa sempre presente, controladora, antes de tudo até... e deixava no ar um quê de tristeza sobre um rosto de um rubor esmaecido desde o tempo das primeiras lágrimas, onde tudo se movia lento e tudo era um corpo só em mãos enlaçadas girando ao redor. E era uma vez, a vez de dizer o verso bem bonito, dar adeus e ir embora.
Mas o pensamento tão distante levava a voz prá outros cantos, e como se antecipasse o vento, já era nuvem sobre um caminho cheio de curvas, túneis, atalhos, cancelas, canseiras. Seguir o depois cansava e provocava uma dor passageira a viajar no corpo pela vida inteira.
Mas na tristeza olhava prá lua e enxergava no escuro a grandeza da noite, e antes que a madrugada viesse pisar sobre as pálpebras seus pés de anjo, pensava, pensava, pensava muito e, quando quase se formava, esmorecia. Porque era tão fraca a força no braço prá puxar essa corda, dar esse laço. Havia um embaraço no ponto exato em que os dedos tocavam o desconhecido. As mãos formigavam na possibilidade do depois, o inevitável. Então apelava prá tristeza mansa e fechava os olhos entregando a trilha.
Porque pensava que era na noite que eles acordavam prá trilhar o depois, tramando em silêncio no silêncio do canto, da última lágrima, no abandono da nuvem seguindo no escuro até que tudo ficasse pequeno, distante, passageiro.
Depois veria, depois viria, depois saberia do raio na curva, na luz do túnel, o corte no atalho, as tantas cancelas, as tantas canseiras num corpo acelerado na mudança dos ventos, abrindo as mãos mostrando o caminho.
Depois, então, seria outra estação.

imagem: desenho de Cristina Nunes
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